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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ao crepúsculo

Separada do corpo a luz
rasteja,
confunde-se com a chuva.
Arrefeceu, as gaivotas
juntam-se nos rochedos.
O gato enrola-se no sono.
Pego nun livro, de repente
uma criança tomba dos versos.
Uma criança morta.
Eugénio de Andrade. As mãos e os frutos (1948)


En el crepúsculo

Separada del cuerpo la luz
se arrastra,
se confunde con la lluvia.
Hace más frío, las gaviotas
se reúnen en las rocas.
El gato se enrosca en el sueño.
Cojo un libro, de repente
un niño cae de los versos.
Un niño muerto.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Paisagem

A névoa que desde manhã fechava
as portas todas ao rio foi-se embora.
A luz é fria: esta é agora
a minha terra, o outono.
Todas as terras são afinal as mesmas
folhas cobrindo a relva, às vezes
cintilando quando o sol rasga a névoa.

Eugénio de Andrade. As mãos e os frutos (1948)


Paisaje

La niebla que desde temprano cerraba
todas las puertas al río ya se ha ido.
La luz es fría: esta es ahora
mi tierra, el otoño.
Todas las tierras son al final las mismas
hojas cubriendo la hierba, a veces
destellando cuando el sol rasga la niebla.

sábado, 25 de setembro de 2010

Adeus

(Para ouvir aqui.)
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade. Os Amantes sem Dinheiro (1950)


Adiós

Ya hemos gastado las palabras por la calle, mi amor,
y lo que nos ha quedado no llega
para alejar el frío de cuatro paredes.
Lo hemos gastado todo menos el silencio.
Hemos gastado los ojos con la sal de las lágrimas,
hemos gastado las manos a fuerza de apretarlas,
hemos gastado el reloj y las piedras de las esquinas
en esperas inútiles.

Meto las manos en los bolsillos
y no encuentro nada.
Antiguamente teníamos tanto para darnos uno a otro;
era como si todas las cosas fuesen mías:
cuanto más te daba más tenía para darte.
A veces tú decías: tus ojos son peces verdes.
Y yo me lo creía.
Me lo creía,
porque a tu lado
todas las cosas eran posibles.

Pero eso era en el tiempo de los secretos,
en el tiempo en que tu cuerpo era un acuario,
en el tiempo en que mis ojos
eran peces verdes.
Hoy son sólo mis ojos.
Es poco, pero es verdad,
unos ojos como todos los otros.

Ya hemos gastado las palabras.
Cuando ahora digo: mi amor,
ya no pasa absolutamente nada.
Y no obstante, antes de haber gastado las palabras,
tengo la certeza
de que todas las cosas se estremecían
sólo de murmurar tu nombre
en el silencio de mi corazón.

No tenemos ya nada para dar.
Dentro de ti
no hay nada que me pida agua.
El pasado es inútil como un trapo.
Y ya te lo he dicho: las palabras están gastadas.

Adiós.