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sábado, 6 de dezembro de 2014

Sou humano porque sou triste

Tenho uma porção de tristeza para a minha
sobrevivência. Quero-me sozinho com ela: quando
ouço passos dentro da minha tristeza escondo-me,
não posso reparti-la nem expô-la, não posso
acrescentá-la nem diminui-la. A porção de tristeza
que tenho em mim é a medida da minha vida. Sou
do tamanho da minha tristeza, nem maior nem
mais pequeno, sou do tamanho exacto da minha
tristeza. Sou humano porque sou triste, sou triste
porque sou humano. Sobrevivo na minha tristeza
e por isso amo e invento. Sou uma sombra triste
junto duma árvore solitária.

Nuno Higino. Rios sedentos. Letras & Coisas. Dezembro de 2014

Soy humano porque soy triste

Tengo una ración de tristeza para mi
supervivencia. Me gusta estar con ella a solas: cuando
oigo pasos dentro de mi tristeza me escondo,
no puedo repartirla ni mostrarla, no puedo
aumentarla ni reducirla. La ración de tristeza
que tengo en mí es la medida de mi vida. Soy
del tamaño de mi tristeza, ni mayor ni
más pequeño, soy del tamaño exacto de mi
tristeza. Soy humano porque soy triste, soy triste
porque soy humano. Sobrevivo en mi tristeza
y por ello amo e invento. Soy una sombra triste
junto a un árbol solitario.

domingo, 1 de maio de 2011

As mães crescem com os anos

As mães sobem uma escada até ao céu,
sobem e descem a escada longa dos filhos;
as mães olham para cima, firmam as mãos na escada
e pensam com os olhos. Ficam de pé ―morrem de pé
se for preciso― a pensar as estrelas. Cada uma delas
é um pulmão jovem, um alvéolo inviolável.
As mães crescem com os anos, tornam-se ramos
a baloiçar na escada: são perenes, persistentes
e mansas. As mães abrigam os pássaros no olhar,
tomam-nos nas mãos como oferta sagrada
e soltam-nos do alto da escada: voam, voam,
crescem contra as nuvens e são água, espuma,
exílio azul. Os filhos são os olhos das mães, aflitos
e saudáveis, à espera que floresça a flor fria
da amendoeira. Olhos que partem para regressar a si.

Dia da mãe, 2011

Nuno Higino (texto). Alberto Péssimo (ilustração).
mãe. E leva os filhos nos olhos como se os levasse pela mão
Letras&Coisas. 2011


Las madres crecen con los años

Las madres suben una escalera al cielo,
suben y bajan la escalera larga de los hijos;
las madres miran hacia arriba, afirman las manos en la escalera
y piensan con los ojos. Se quedan de pie ―mueren de pie
si es preciso― pensando las estrellas. Cada una de ellas
es un pulmón joven, un alveolo inviolable.
Las madres crecen con los años, se vuelven ramas
que se mecen en la escalera: son perennes, persistentes
y mansas. Las madres abrigan los pájaros en su mirar,
los toman en las manos como dádiva sagrada
y los sueltan de lo alto de la escalera: vuelan, vuelan,
crecen contra las nubes y son agua, espuma,
exilio azul. Los hijos son los ojos de las madres, ansiosos
y saludables, a la espera de que florezca la flor fría
del almendro. Ojos que se van para regresar a sí.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Talvez Deus se tenha enganado

Queria centrar-me todo em certas palavras, ocupar o espaço
sem necessidade de coordenadas, errar o tempo
tomando-o por tempos que nunca existiram. Desejaria a sorte
dos que morreram em naufrágios e foram poupados
à habitação dos cemitérios. Nunca tive jeito para ser feliz
[nem para gritar] e pior que isso: condenado à efémera
duração dos sonhos [bastava a poesia para condenar-me]
Talvez Deus se tenha enganado: sobre o barro soprou a vida
em vez do sonho.
 Nuno Higino. Talvez Deus se tenha enganado. Letras & Coisas (2004)



Quizá Dios se haya equivocado

Quisiera centrarme todo en ciertas palabras, ocupar el espacio
sin necesidad de coordenadas, errar el tiempo
tomándolo por tiempos que nunca han existido. Desearía la suerte
de los que han muerto en naufragios y se han librado
de habitar los cementerios. Nunca se me dio bien ser feliz
[tampoco gritar] y peor que eso: condenado a la efímera
duración de los sueños [bastaba la poesía para condenarme]
Quizá Dios se haya equivocado: sobre el barro sopló vida
en vez de ensueño.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Os deuses da pátria a cavalgar nos sonhos

Se eu tivesse segura a eternidade [como tenho as contas diárias
para pagar] renunciaria aos livros que ainda tenho para ler.
Nem poria os óculos que me tonteiam a realidade. Nem
ouviria o Peter Grimes que agora oiço -que me interessaria
o bramir da música contra os rochedos da poesia?
Se eu tivesse segura a eternidade [como a geada que esta manhã
me gelou os olhos] deixava-me dormir o dia inteiro
com os deuses da pátria a cavalgar nos sonhos. Talvez
inventasse um planalto qualquer, com uma pedra em forma
de destino e sentado esperasse os animais de Zaratustra
no seu aparecer alto e circular

Nuno Higino. O animal eólico do corpo


Los dioses de la patria cabalgando en los sueños

Si tuviera asegurada la eternidad [como tengo las cuentas diarias
que pagar] renunciaría a los libros que aún me quedan por leer.
No me pondría las gafas que me perturban la realidad. Ni
oiría al Peter Grimes que ahora oigo ―¿qué me iba a interesar
el bramar de la música contra los peñascos de la poesía?
Si tuviera asegurada la eternidad [como la helada que esta mañana
me ha helado los ojos] me quedaría durmiendo el día entero
con los dioses de la patria cabalgando en los sueños. Tal vez
inventase una altiplanicie cualquiera, con una roca en forma
de destino y sentado esperase a los animales de Zaratustra
en su aparecer alto y circular