domingo, 17 de junho de 2012

[Os Rurais]

Primeiro treinamos o disfarce de sermos cosmopolitas
e depois procuramos livrar-nos dos disfarces
de fazer de conta que o somos: tiramos as máscaras
com a ilusão de que assim nos disfarçamos melhor
e de que assim nos é possível fazer de conta
que não trazemos merda agarrada aos sapatos.
Nas grandes cidades chegávamos a dar-nos

bem: Paris ou Copenhaga não são muito
diferentes de uma aldeia de montanha
no que respeita ao modo como os outros nos olham
e olhamos os outros. Quer dizer: a cumplicidade
ou a distância que entre as pessoas se estabelece
nos pequenos lugares não é substancialmente
diferente da que o anonimato proporciona
nas praças e nos largos das urbes. E ser rural

chegava a deixar de ser esse peso de falarmos
ou fazermos um gesto e descobrir-se
à distância a pesada pronúncia ou o cheiro
da urze entranhado na pele. O problema
são os espaços sociais de média dimensão:
um jantar com amigos de amigos num restaurante
caro ou uma conferência num anfiteatro
sobre a imortalidade da alma: o nosso inglês
mesmo que seja perfeito vê-se que foi aprendido
a custo nos livros de um liceu
da província; os nossos fatos têm sempre
desusados vincos e parece que foram
feitos para alguém um pouco mais gordo
ou um pouco mais magro do que nós; os nossos
argumentos filosóficos descambam inevitavelmente
no senso comum e risível dos provérbios;
e nunca acertamos os talheres ou os copos
com as protocoladas necessidades deles.

Compreendemos um dia que não adianta
colocar uma máscara e outra máscara
sobre o rosto ou retirá-las todas na ilusão
de que assim nos é mais fácil disfarçar
a ruralidade que somos como se não pertencêssemos
ainda e para sempre aos lugares afastados
onde nascemos e onde ficámos mesmo quando de
lá saímos muito cedo. E portanto resta-nos

ser rurais e trazer a merda agarrada
aos sapatos com a arrogância e a displicência
com que os cosmopolitas à mesa manobram
os talheres bastando-nos a nós o disfarce
de não sentirmos vergonha quando não sabemos
se é de faca e garfo ou com uma colherzinha
de entre tantas facas e tantos garfos e tantas colherzinhas
que nos devemos meter ao petit gateau de chocolate.

Claro que não é isto que pode salvar-nos.
Mas a partir de certa altura já quase
nos basta ter uma máscara que nos disfarce
até sermos exactamente o que somos.

José Carlos Barros. Casa de Cacela. 2012


[Los Rurales]

Primero entrenamos el disfraz de ser cosmopolitas
y después procuramos librarnos de los disfraces
de hacer como si lo fuésemos: nos quitamos las máscaras
con la ilusión de que así nos disfrazamos mejor
y de que así nos es posible hacer como si no
llevásemos mierda pegada en los zapatos.
En las grandes ciudades llegábamos a estar

a gusto: Paris o Copenhague no son muy
diferentes de una aldea de montaña
en lo que respecta al modo en que los demás nos miran
y miramos a los demás. Es decir: la complicidad
o la distancia que entre las personas se establece
en los pequeños lugares no es sustancialmente
diferente de la que el anonimato proporciona
en las glorietas y plazas de las urbes. Y ser rural

llegaba a dejar de ser ese peso de hablar
o hacer un gesto y que se descubriera
a distancia el pesado acento o el olor
del brezo entrañado en la piel. El problema
son los espacios sociales de media dimensión:
una cena con amigos de amigos en un restaurante
caro o una conferencia en un anfiteatro
sobre la inmortalidad del alma: nuestro inglés
aunque sea perfecto se ve que fue aprendido
a pulso en los libros de un instituto
de provincias; nuestros trajes tienen siempre
pliegues pasados de moda y parece que fueron
hechos para alguien un poco más gordo
o un poco más flaco que nosotros; nuestros
argumentos filosóficos degeneran inevitablemente
en el sentido común y risible de los proverbios;
y nunca casamos los cubiertos o los vasos
con las protocoladas necesidades de estos.

Comprendemos un día que de nada sirve
colocar una máscara y otra máscara
sobre el rostro o quitarlas todas en la ilusión
de que así nos es más fácil disimular
la ruralidad que somos como si no perteneciéramos
todavía y para siempre a los lugares alejados
en los que nacimos y continuamos incluso cuando de
allí salimos muy temprano. Y por tanto solo nos queda

ser rurales y llevar la mierda pegada
a los zapatos con la arrogancia y la displicencia
con la que los cosmopolitas a la mesa manejan
los cubiertos bastándonos a nosotros el disfraz
de no sentir vergüenza cuando no sabemos
si es con cuchillo y tenedor o con una cucharilla
de entre tantos cuchillos y tantos tenedores y tantas cucharillas
con lo que nos debemos aplicar al petit gateau de chocolate.

Claro que no es esto lo que nos puede salvar.
Pero a partir de cierta altura ya casi
nos basta tener una máscara que nos disfrace
hasta ser exactamente lo que somos.

domingo, 3 de junho de 2012

Testamento

À prostituta mais nova,
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida,
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo,
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
das contas doutro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os para ti, meu Amor...
Para que na paz da hora
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,

vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...

Alda Lara (Lisboa, 1950). In Poemas. Edições Imbondeiro. 1966


Testamento

A la ramera más joven,
del barrio más viejo y oscuro,
le dejo mis aros, labrados
en cristal, límpido y puro...

Y a la virgen olvidada,
jovencita sin ternura,
que sueña alguna leyenda,
le dejo el vestido blanco,
mi blanco traje de novia,
todo tejido de encaje...

Este mi rosario antiguo,
se lo ofrezco a aquel amigo
que no cree que exista Dios...
Son los libros, rosarios míos
de cuentas de otro padecer,
para los hombres humildes,
que nunca han sabido leer.

Cuanto a mis poemas locos,
esos, que son de dolor
sincero e desordenado...
esos, que son de esperanza,
desesperada mas firme,
a ti te los dejo, mi Amor...
Para que en la paz del tiempo
en que esta mi alma venga
a besar tus ojos de lejos,

vayas por la noche adentro...
con pasos hechos de luna,
a dárselos a los niños
que en cada calle te encuentres...

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Meu pai no corredor

Meu pai
no corredor

Na esquadria
do tecto branco
do chão branco
deserto

Meu pai
no corredor

Parado
no fundo branco
no silêncio longo
gelado
deserto

Meu pai
no corredor

de fato branco
suspenso
no entre-acto
da sombra branca
desperto

Meu pai
no corredor

Parado
na luz branca
asséptica
de olhar branco
petrificado
implora

Meu pai
no corredor

no meu peito
a face imberbe
aos vinte anos
nas minhas barbas
encanecidas
enfim
            chora.

Arnaldo Santos. Momentos (1958-2011). nóssomos. 2011


Mi padre en el pasillo

Mi padre
en el pasillo

En la escuadra
del techo blanco
del suelo blanco
desierto

Mi padre
en el pasillo

Parado
en el fondo blanco
en el silencio largo
helado
desierto

Mi padre
en el pasillo

de traje blanco
colgado
en el entreacto
de la sombra blanca
despierto

Mi padre
en el pasillo

Parado
en la luz blanca
aséptica
de mirada blanca
petrificada
implora

Mi padre
en el pasillo

en mi pecho
el rostro imberbe
a los veinte años
en mi barba
encanecida
por fin
             llora.

domingo, 13 de maio de 2012

Enigma

O teu enigma
não é o do espaço vazio
por entre os dedos

O teu enigma
é a nobreza do gesto futuro
quase escondido
nas palavras diurnas

O teu enigma
é líquido
quase como as formas que usas
todas elas
para dizer: inacabado
nunca fechado
na calmaria
da
paisagem.
ilha, 11 de maio de 2012

Rosa Oliveira. Affectum (2012)


Enigma

Tu enigma
no es el del espacio vacío
por entre los dedos

Tu enigma
es la nobleza del gesto futuro
casi escondido
en las palabras diurnas

Tu enigma
es líquido
casi como las formas que usas
todas ellas
para decir: inacabado
nunca cerrado
en la calma
del
paisaje.

domingo, 6 de maio de 2012

Luz

não atirem para o meu peito
palavras sórdidas palavras velhas
para o meu peito não atirem
palavras velhas palavras sórdidas

inventarei as minhas
no piso da cidade
no chão do campo
na escuridão da solidão.

para o meu caminho não atiren
palavras velhas palavras sórdidas
irei à busca da palavra
onde os homens desconhecem o grito
irei à busca da palavra
onde os homens cultivam no peito
as palavras que hão-de ser ditas:
ditas à janela da cidade
irei à busca da palavra
e direi o que se diz entre as paredes
para que da palavra nasça a luz.

não me atirem palavras sórdidas
palavras velhas
inventarei as minhas
e serei um pedaço de palavra.

João Maimona. Memória de sombra. nóssomos. 2012


Luz

no me arrojen al pecho
palabras sórdidas palabras viejas
al pecho no me arrojen
palabras viejas palabras sórdidas

me inventaré las mías
en el piso de la ciudad
en el suelo del campo
en la oscuridad de la soledad.

al camino no me arrojen
palabras viejas palavras sórdidas
iré en busca de la palabra
donde los hombres desconocen el grito
iré en busca de la palabra
donde los hombres cultivan en el pecho
las palabras que serán dichas:
dichas a la ventana de la ciudad
iré en busca de la palabra
y diré lo que se dice entre las paredes
para que de la palabra nazca la luz.

no me arrojen palabras sórdidas
palabras viejas
me inventaré las mías
y seré un pedazo de palabra.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O sol inclinado sobre a tarde

O sol inclinado sobre a tarde,
como o poeta debruçado sobre a varanda da memória,
levemente ardendo
e bebendo a vasta respiração da cidade,
lento como o próprio dia.
Tudo parece nos seus lugares, mas
eu capto um certo tremor criminoso
por detrás do oco ordenamento do tempo.

A tarde é propícia a suaves insignificâncias:
olhares sem malícia, gestos aprazíveis,
complacentes risos inócuos.
Uma angústia primordial espreita sob o sol,
mas apenas eu a descortino. Nada me escapa:
os amores em cálida gestação,
os ódios lançados contra as paredes, como
manchas estúpidas e pecaminosas,
a menstruação exaltada das mulheres.
Os sabores estupram os tambores e
somente eu os vejo.

Caminho movido subterraneamente
por uma sabedoria viva e sangrenta. Mas
só as pedras o entendem.
Abre-se o tempo sob os meus passos inaudíveis.
Estes homens saem dos edifícios e nem reparam
na inusitada inclinação solar. Apetece-me
pôr as vísceras de fora e gritar.

Na verdade, respiro como um velho feiticeiro africano
no coração ardente desta tarde estrangeira.
A luz levemente coada do dia
espeta-se como avisos subtis
em todas as minhas extremidades: os dedos, os olhos,
o estômago atravessado por um vento tremendo.
Até que, de súbito,
a multidão olha-me aterrorizada.
Mas só eu o percebo.

Escrito no Rio de Janeiro

João Melo. A construção do tempo. nóssomos. 2012


El sol inclinado sobre la tarde

El sol inclinado sobre la tarde,
como el poeta asomado al balcón de la memoria,
levemente ardiendo
y bebiendo la vasta respiración de la ciudad,
lento como el propio día.
Todo parece en su sitio, pero
yo capto un cierto temblor delictivo
por detrás del huero ordenamiento del tiempo.

La tarde es propicia a suaves insignificancias:
miradas sin malicia, gestos apacibles,
complacientes risas inocuas.
Una angústia primordial acecha bajo el sol,
mas sólo yo la vislumbro. Nada se me escapa:
los amores en cálida gestación,
los odios lanzados contra las paredes, como
manchas estúpidas y pecaminosas,
la menstruación exaltada de las mujeres.
Los sabores estupran a los tambores y
solamente yo los veo.

Camino movido subterráneamente
por una sabiduría viva y sangrienta. Pero
sólo las pedras lo entienden.
Se abre el tiempo bajo mis pasos inaudibles.
Estos hombres salen de los edificios y ni se fijan
en la inusitada inclinación solar. Me apetece
poner las vísceras al aire y gritar.

La verdad, respiro como un viejo hechicero africano
en el corazón ardiente de esta tarde extranjera.
La luz levemente colada del día
se espeta como avisos sutiles
en todas mis extremidades: los dedos, los ojos,
el estómago atravesado por un viento tremendo.
Hasta que, de súbito,
la multitud me mira aterrorizada.
Pero sólo yo lo percibo.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes


Soneto de fidelidade

De todo, a mi amor estaré atento
Antes, con tal celo, y siempre, y tanto
Que aún delante del mayor encanto
De él se encante más mi pensamiento.

Quiero vivirlo en cada vano instante
Y en su alabanza esparciré mi canto
Reiré mi risa y verteré mi llanto
A su pesar o a su placer radiante

Y así, cuando más tarde me reclame
Tal vez la muerte, angustia de quien vive
Tal vez la soledad, fin de quien ama

Yo me pueda decir del amor (que tuve):
Que no sea inmortal, puesto que es llama
Mas que sea infinito mientras ame.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Eu deveria passar por mim

Deus e Belzebu são um só
A cintilar sobre as cúpulas.
Com eles estão a onça o leão e a loba
Mas também as máquinas de devastar
Que serão aniquiladas depois
De estropiadas dobradas amassadas sobre si
Até suspirarem pela sombra
Até enlouquecerem.

E os poderosos sentindo-se inexpugnáveis
Nas sua cidades de aço
Na sua carne de bronze brilhante
Nos seus obeliscos de ónix
Fazendo sexo com os céus
Capazes de engolir as brasas
Com as suas portas ávidas
Com as suas bocas centro de furacões

Também eles sucumbirão
Com os mares e os meteoros
A erva verde as forragens os manjares insípidos
E as gemas dos dedos

Porque eles são o eco de um uivo e não o sabem
Porque eles são de nada e não o sabem.

Desesperados hão-de deitar o fogo à floresta dos homens
Lançar glaciares contra as labaredas
Mas restar-lhes-ão as cinzas a soluçar na noite
Uma paródia selvagem de negro e negro
Que o Nada lhes saberá explicar.

A todos o incêndio de tudo
Até dos átomos ferozes
Que eternamente se pensaram a devorar
A estrada de leite dos céus
Até os átomos serão traçados
Pelo gládio do Nada sagrado
Até os deuses dez vezes serão cortados
Pela foice em fúria do ceifeiro do tempo.

Henrique Dória. Odisseus (2012)



Yo debería pasar por mí

Dios y Belzebú son uno sólo
Que centellea sobre las cúpulas.
Con ellos están la onza el león y la loba
Mas también las máquinas de devastar
Que serán aniquiladas después
De mutiladas vergadas aplastadas sobre sí
Hasta que suspiren por la sombra
Hasta que enloquezcan.

Y los poderosos sintiéndose inexpugnables
En sus ciudades de acero
En su carne de bronce brilhante
En sus obeliscos de ónice
Copulando con los cielos
Capaces de engullir las brasas
Con sus puertas ávidas
Con sus bocas centro de huracanes

También ellos sucumbirán
Con los mares y los meteoros
La hierba verde los pastos los manjares insípidos
Y las yemas de los dedos

Porque ellos son el eco de un aullido y no lo saben
Porque ellos son de nada y no lo saben.

Desesperados prenderán fuego al bosque de los hombres
Lanzarán glaciares contra las llamaradas
Pero les quedarán las cenizas sollozando en la noche
Una parodia salvaje de negro y negro
Que la Nada les sabrá explicar.

A todos el incendio de todo
Hasta de los átomos feroces
Que eternamente se imaginaron devorando
El camino de leche de los cielos
Hasta los átomos serán corroídos
Por la espada da la Nada sagrada
Hasta los dioses diez veces serán cortados
Por la hoz en furia del segador del tiempo.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Fernando Pessoa. Poemas de Alberto Caeiro. "Poemas inconjuntos" (1930)


Cuando venga la primavera

Cuando venga la primavera,
Si ya estuviera muerto,
Las flores se abrirán de igual manera
Y los árboles no serán menos verdes que la primavera pasada.
La realidad no me necesita.

Siento una alegría enorme
Al pensar que mi muerte no tiene importancia alguna

Si supiera que mañana me moría
Y la primavera era pasado mañana,
Me moriría contento, porque era pasado mañana.
Si ese es su tiempo, ¿cuándo iba a venir sino en su tiempo?
Me gusta que todo sea real y que todo esté en su sitio;
Y me gusta porque así sería, aunque a mí no me gustara.
Por eso, si me muero ahora, me muero contento,
Porque todo es real y todo está en su sitio.

Pueden rezar latines sobre mi ataúd, si quieren.
Si quieren, pueden bailar y cantar en torno a él.
No tengo preferencias para cuando ya no pueda tener preferencias.
Lo que sea, cuando sea, ha de ser lo que es.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Días así

Días oscuros como la piel de hombre negro que luego
se funde en la oscuridad de la noche que confunde.
Días de frío frío que dejan al ser de los trópicos, boca
abierta, un cerebro congelado hacia una sola meta: sol
tropical.
Días de frío constante, gris y claros mezclados.
Días para los sentidos auditivos, el mensaje de la
naturaleza en su revuelta.
Me acordé, viviendo el panorama, que venía de unos
arrecifes y planicies con calor y viento casi siempre.
Sentí que la vida está más allá de la frontera que me vio
nacer, dentro de mis semejantes.
También sentí que las fronteras son palos que reman
hacia el mal entendimiento de tipo: orgullo tonto.

Abdoulaye Bilal Traoré. Oculto al sol. El taller del poeta (2011)


Dias assim

Dias escuros como a pele de homem preto que logo
se funde na escuridão da noite que confunde.
Dias de frio frio que deixam o ser dos trópicos, boca
aberta, um cérebro regelado focado a uma soa meta: sol
tropical.
Dias de frio constante, cinzento e claros misturados.
Dias para os sentidos auditivos, a mensagem da
natureza na sua revolta.
Lembrei, a viver o cenário, que vinha duns
recifes e planícies com calor e vento quase sempre.
Senti que a vida está além da fronteira que me viu
nascer, dentro dos meus semelhantes.
Também senti que as fronteiras são paus que remam
em direcção ao mal entendimento de tipo: orgulho parvo.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Desde entonces

Hubo una edad (siglos atrás, nadie lo recuerda)
en que estuvimos juntos meses enteros,
desde el amanecer hasta la medianoche.
Hablamos todo lo que había que hablar.
Hicimos todo lo que había que hacer.
Nos llenamos
de plenitudes y fracasos.
En poco tiempo
incineramos los contados días.
Se hizo imposible
sobrevivir a lo que unidos fuimos.
Y desde entonces la eternidad
me dio un gastado vocabulario muy breve:
"ausencia", "olvido", "desamor", "lejanía".
Y nunca más, nunca más, nunca, nunca.

José Emilio Pacheco. Islas a la deriva. Poesía III (1973-1978). Visor Libros (2011)


Desde então

Houve uma idade (séculos atrás, já ninguém lembra)
em que estivemos juntos meses inteiros,
desde o amanhecer até à meia-noite.
Falámos todo o que havia para falar.
Fizemos todo o que havia para fazer.
Preenchemo-nos
de plenitudes e fracassos.
Em pouco tempo
incinerámos os contados dias.
Fez-se impossível
sobreviver ao que unidos fomos.
E desde então a eternidade
deu-me um gasto vocabulário muito breve:
"ausência", "esquecimento", "desamor", "lonjura".
E nunca mais, nunca mais, nunca, nunca.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Fraternidade

Ao Joaquim Castro Caldas
Ao Jaime Lousa
Ao Sebastião Alba


Mais um dia
mais um café
escrever é o meu ofício
e escrevo com o meu próprio sangue
acredito nas minhas palavras
acredito nas minhas palavras, ouviste?
Já tive as minhas desilusões políticas
já não tenho aquelas certezas
mas continuo a ter convicções
acredito no homem
acredito no homem enquanto criador
apesar de tudo
apesar da rapina e da competição
acredito também no amor
no amor que une a mãe à criança
no amor que não se paga
no amor livre e gratuito
no amor infinito
no amor
sim, no amor
apesar de estar com a raiva toda
falo do amor
o amor é uma espécie de divindade
o amor é um homem esfarrapado
como dizia Sócrates,
um gajo teso que caminha pela cidade
sem ter onde dormir
um gajo sábio sem eira nem beira
como o Jaime e como o Alba
o gajo que te dirige a palavra
e te quer
que apanha bebedeiras
e cospe poemas
como o Joaquim
que é terno sem deixar de ser narciso
que tira o som ao primeiro-ministro
que pergunta pela tua loucura
que te saúda na rua
que diz que a tua performance foi brilhante
é isso o amor
a fraternidade
o encontro dos criadores
e fica
para sempre.
António Pedro Ribeiro. Café Paraíso. Bairro dos Livros (Cultureprint, CRL) (2011)


Fraternidad
A Joaquim Castro Caldas
A Jaime Lousa
A Sebastião Alba


Otro día
otro café
escribir es mi oficio
y escribo con mi propia sangre
creo en mis palabras
creo en mis palabras, ¿me oyes?
He tenido mis desilusiones políticas
ya no tengo aquellas certidumbres
pero sigo teniendo convicciones
creo en el hombre
creo en el hombre como creador
a pesar de todo
a pesar de la rapiña y de la competición
creo también en el amor
en el amor que une a la madre a su hijo
en el amor que no se paga
en el amor libre y gratuito
en el amor infinito
en el amor
sí, en el amor
a pesar de estar lleno de rabia
hablo de amor
el amor es una especie de divinidad
el amor es un hombre desharrapado
como decía Sócrates,
un tipo pelado que camina por la ciudad
sin tener dónde dormir
un tipo sabio que está sin un chavo
como Jaime y como Alba
el tipo que te dirige la palabra
y te quiere
que agarra borracheras
y escupe poemas
como Joaquim
que es tierno sin dejar de ser narciso
que deja mudo al primer ministro
que te pregunta por tu locura
que te saluda por la calle
que te dice que tu actuación ha sido brillante
es eso el amor
la fraternidad
el encuentro de los creadores
y queda
para siempre.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Autobiografia

Não preciso mas tu sabes como eu sou
Encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
Das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
Essa névoa contemporânea do medo miudinho
Que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
Antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
Lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
Tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu,
A vertigem ardeu-me nos braços até a sangria
Do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
Mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
São corais no pensamento. Jardins e fantasmas,
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
E profunda: sem braços e agora sem mais nada.
Não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
Atraso — ah aqueles braços para apoiar as mãos — ,
Ceifando. Saturno e o vento na proa erguendo.
O:navio:no:mar:parado:parado:completamente.
Parado.como dizer? Não dizer, eu sou.uma vida
Medonha e múltipla. E agora descanso
Deitado nestas mãos que mexem
Sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
P’la manhã.

Rui Costa. A nuvem prateada das pessoas graves. Edições Quasi (2005)


Autobiografía

No me hace falta pero tú ya sabes cómo soy
Me encarrilo poco me divierto así en las copas
De los árboles soplando pensamientos para el mundo que hay de noche.
Las personas cuando se despiertan son otras, ya lo sabías,
Esa niebla contemporánea del miedo menudo
Que perdemos en las ciudades y en los cuerpos, tú entraste
Antes que yo en los juegos, el azufre de la música y el
Lago del hechizo, inocente hombre breve que sueña
De sobra lo sabes.
Después alquilé a la bruja por una vasta noche.
Y mi vida cambió, la noche creció,
El vértigo me ardió en los brazos hasta la sangría
Del tedio cuando para siempre creí que te perdía.
En la lucha perdí uno o dos brazos,
Más de lo que tenía. Pero este recuerdo es un palacio,
Son corales en el pensamiento. Jardines y fantasmas,
El filo en las manos sorbiendo, niño estratosférico
Y profundo: sin brazos y ahora sin nada más.
No me entendiste, me henchí de furia.
Es un arte, quería yo decir, matar sin retroceso ni
Retraso —ah aquellos brazos para apoyar las manos—,
Segando. Saturno y el viento en la proa levantando.
El:navío:en:el:mar:parado:parado:completamente.
Parado.cómo decirlo? No decir, yo soy.una vida
Temible y múltiple. Y ahora descanso
Acostado en estas manos que se mueven
Sin apoyo, sabes, naciendo de tus ojos
Por la mañana.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Fala da velha

Navego uma solidão de búzios
No mar verde de canela e açafrão
A noite é mais fechada
No ar de prata e pólen
Que respiro

Meu coração é um lago
Por onde deslizou a vida
Sem flores
Sem nenúfares.

Paula Tavares. Manual para amantes desesperados. Caminho (2007)


Dice la vieja

Navego una soledad de caracolas
En el mar verde de canela y azafrán
La noche es más cerrada
En el aire de plata y polen
Que respiro

Mi corazón es un lago
Por donde se ha deslizado la vida
Sin flores
Sin nenúfares.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

gramática do português contemporâneo

ler
é também uma maneira de premeditar a solidão,
um modo de aproximar a alma da sintaxe
como se também o ser se ordenasse
em sujeito
predicado e complemento directo.

Alexandra Monteiro. os dias lentíssimos. Fundação Ciência e Desenvolvimento / Editora Objetiva (2011)


gramática de portugués contemporáneo

ler
es también una manera de premeditar la soledad,
un modo de aproximar el alma a la sintaxis
cómo si también el ser se ordenara
en sujeto
predicado y complemento directo.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Algum dia um novo Papa

Algum dia um novo Papa
Anunciará altivo
Que é Deus a raiz quadrada
De um quantum negativo

E o Deus que tanto procuro
Em que atingido me afundo
É aquele ser-não-ser
Do que acontece no mundo

Da matéria mais que densa
É que é divertido ser
Ali se nada acontece
Tudo pode acontecer
Agostinho da Silva


Algún día un nuevo Papa

Algún día un nuevo Papa
anunciará altivo
Que es Dios la raíz cuadrada
De un quantum negativo

Y el Dios que yo tanto busco
En que alcanzado me hundo
Es aquel ser-y-no-ser
De lo que pasa en el mundo

De materia más que densa
Es tan divertido ser
Allí si nada sucede
Todo puede suceder.

domingo, 13 de novembro de 2011

Se me vierem saudar à porta deixá-la-ei entreaberta
para que o vento a feche as mãos são por de mais
puras para que se fechem diante dos homens
não entendo como fora difícil decifrar que o tempo
é um extracto do que se considera como sendo um
preciso compor de velhos instantes
alguém me seguirá caso a porta se mantenha
entreaberta entre o corredor e o acesso dos degraus
das escadas cuja cor se confunde com o castanho
e o vermelho do barro e a secular pintura dos homens
inscritas em velhos jornais
se crescem plantas entre as avenidas é porque alguém
as jogou primeiro como vivas sementes em terreno
nacional e em praça municipal
se colho de tarde restos de brilhos do sol onde nasce
a lua continua o arquivar da luz para que as noites
nunca se esgotem em nós para que as palavras nunca
se nos pereçam e para que sejamos nós mesmos diante
de um acordeão em bailes de rebita
se me vierem saudar à porta deixá-la-ei entreaberta
para que o vento a feche pois as mãos são por demais
puras para que se fechem diante dos homens

Nok Nogueira. Jardim de estações. nóssomos (2011)



Si me vienen a saludar a la puerta la dejaré entreabierta
para que el viento la cierre las manos son por demás
puras para que se cierren ante los hombres
no entiendo cómo ha sido tan difícil descifrar que el tiempo
es un extracto de lo que se considera como siendo un
preciso componer de viejos instantes
alguien me seguirá si acaso la puerta se mantiene
entreabierta entre el pasillo y el acceso de los peldaños
de las escaleras cuyo color se confunde con el castaño
y el rojo del barro y la secular pintura de los hombres
inscritas en viejos diarios
si crecen plantas entre las avenidas es porque alguien
las echó primero como vivas semillas en terreno
nacional y en plaza municipal
si cojo por la tarde restos de brillos del sol donde nace
la luna continúa el archivar de la luz para que las noches
nunca se agoten en nosotros para que las palabras nunca
se nos perezcan y para que seamos nosotros mismos ante
un acordeón en bailes de rebita (1)
si me vienen a saludar a la puerta la dejaré entreabierta
para que el viento la cierre pues las manos son por demás
puras para que se cierren ante los hombres

1. Nota de la T.: La rebita es un baile típico de Luanda, que data del siglo XIX, inspirado en los bailes de salón europeos.

domingo, 6 de novembro de 2011

Sem outro intuito

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Luís Miguel Nava


Sin otro objeto

Arrojábamos piedras
al agua para que el silencio saliese a flote.
El mundo, que los sentidos tonifican,
nos surgía entonces todo enterrado
en nuestra propia carne, envuelto
a veces en feroces transparencias
que las piedras azuzaban
sin otro objeto que el de que extrayesen
de las aguas el silencio que las unía.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Claustrofobia

Valsa fechada de contornos poupados
Pelos metros da sala que não se alarga
De cantos subtis e contraídos, nos lados
Acentuada como se lá não estivesse ninguém.

Cada vez mais imóvel, a valsa agora
Dançando pela fundura alta, sem saída,
Onde as paredes deixam de ser brancas, a hora
É interrompida pela música que se esquece
De tocar e o passo cada vez mais convida
Os pés a ficar sem responder.

É preciso respirar, desafogar-se do medo,
Esmurrar o tapume cego dos limites,
Gozar cada toque de dedos na nota
Do piano leve, gizando lá fora,
As pautas de uma dança devota
Pela liberdade.

Fracos os que repetem:
Não fales, não grites, não te movas
Enquanto o espaço não o disser.

Sarah Virgi. Intercadências. 2011
[através de Uma casa em Beirute]


Claustrofobia

Vals cerrado de contornos ahorrados
Por los metros de la sala que no se ensancha
De esquinas sutiles y contraídas, a los lados
acentuada como si no hubiese en ella nadie.

Cada vez más inmóvil, el vals ahora
Bailando por la hondura alta, sin salida,
Donde las paredes dejan de ser blancas, la hora
Es interrumpida por la música que se olvida
De tocar y el paso cada vez más invita
A los pies a quedarse sin responder.

Es preciso respirar, desahogarse del miedo,
Aporrear la tapia ciega de los límites,
Disfrutar de cada toque de dedos en la nota
Del piano leve, marcando allá afuera,
Las pautas de una danza devota
Por la libertad.

Débiles los que repiten:
No hables, no grites, no te muevas
Mientras el espacio no lo diga.

domingo, 16 de outubro de 2011

Ecos

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

Saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

Ana Luísa Amaral. Se fosse um intervalo. Dom Quixote (2009)


Ecos

En voz alta, he ensayado tu nombre:
la palabra se ha roto
Ni eco ínfimo en esta habitación
casi hueca de muebles

Casi un tiempo de vida durmiendo
a tu lado y el desapego es esto:
un eco ausente, una ausencia de nombre
que se repite

Saber que nunca más: reducida
a un extremo de esta cama ancha
el calor sofocante

En cambio: mi pie izquierdo
cruzado en lado izquierdo
en esta cama

Tu nombre en un suelo
ni de añoranza

domingo, 9 de outubro de 2011

O anjo que até dá pena

Mora uma aranha na caixa do correio
a teia não me deixa ler as tuas cartas
come-me as palavras como insectos
uma a uma
até que fica só o remetente         que sou eu
e como não te posso ouvir
como não te posso falar
como não te posso ler
fico assim      apertado      sem correio
fico aqui      apartado      sem correio
e o carteiro que podia entregar em mão diz
não são registadas
apesar de me lembrar
não podem ser assinadas
e a tinta está a secar
um dia perco a cabeça       e mando o meu corpo para o céu      em correio azul
meu anjo
meu anjo analfabeto
que não escreve
nunca escreveu
e não pode ler-me a sina      porque não tenho mãos      gastei-as no apertar
porque não tenho peito
mirrou de tanto bater
porque não tenho tempo
dei-to todo
todo
para que te sentes à escrivaninha
pegues na cartilha       e aprendas a ler

João Negreiros. O cheiro da sombra das flores. Papiro Editora (2007)


El ángel que hasta da pena

Vive una araña en el buzón
la tela no me deja leer tus cartas
me come las palabras como insectos
una a una
hasta que queda sólo el remitente       que soy yo
y como no te puedo oír
como no te puedo hablar
como no te puedo leer
me quedo así       apretado       sin correo
me quedo aquí       apartado       sin correo
y el cartero que podía entregar en mano dice
no son certificadas
a pesar de acordarme
no pueden ser firmadas
y la tinta se está secando
un día pierdo la cabeza       y mando mi cuerpo al cielo       por correo urgente
mi ángel
mi ángel analfabeto
que no escribe
nunca ha escrito
y no me puede leer el destino       porque no tengo manos       las he gastado en apretar
porque no tengo pecho
se ha agostado de tanto latir
porque no tengo tiempo
te lo he dado todo
todo
para que te sientes a la escribanía
cojas la cartilla       y aprendas a ler

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O fim da aventura

À tarde sento-me no jardim do bairro
onde os lódãos acolhem melros
e enchem de sementes as inférteis
alamedas de alcatrão.

É o primeiro domingo sem ti,
em tudo igual aos outros domingos:
ruas despovoadas, grades nas montras
escuras, um pacato mundo de vizinhos
temporariamente ausentes.

Deixo-me ficar ao frio um bom bocado,
distraído pelo fútil desejo de ser
o próximo estranho que atravesse
a rua, de não ter sequer o abrigo
dum nome.

E, de súbito, ei-la que regressa,
após meses de remanso em parte
incerta: conjurei a sombra azeda
que me sussurra ao ouvido.

Cá está ela, sim, íngreme
e sedenta.

A poesia.

Rui Pires Cabral. Capitais da solidão. "Museu do amor" (2006)


El final de la aventura

Por la tarde me siento en el jardín del barrio
donde acogen mirlos los almeces
y llenan de semillas las infértiles
alamedas de alquitrán.

Es el primer domingo sin ti,
en todo igual a los demás domingos:
calles despobladas, rejas en los escaparates
oscuros, un plácido mundo de vecinos
temporalmente ausentes.

Me dejo estar al frío un buen rato,
distraído por el fútil deseo de ser
el próximo extraño que atraviese
la calle, de no tener siquiera el amparo
de un nombre.

Y, de repente, hela ahí que regresa,
tras meses de remanso en lugar
incierto: conjuré la sombra agria
que me susurra al oído.

Aquí está ella, sí, escarpada
y sedienta.

La poesía.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O silêncio

Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras sairam
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

Nuno Júdice. A matéria do poema. Dom Quixote. 2008


El silencio

Cojo un pedazo de silencio. Lo rompo al medio,
y veo cómo salen de dentro las palabras que
quedaron por decir. Unas, las meto en un frasco
con el alcohol de la memória, para que se
transformem en licor de remordimiento; otras,
me las guardo en la cabeça para decírselas, un día,
a quien me pregunte qué significan.
Pero el silencio de donde las palabras habían salido
se vuelve a extender sobre ellas. Me bebo el licor
del remordimiento; y saco de la cabeza las otras palabras
que se habían quedado ahí, hasta que el ruido desaparezca, y sólo
el silencio quede, entero, sin nada por dentro.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Relógio morto

sinto-me como o tempo.
é anestésica a garganta que come a idade do tempo.

sinto-me como o tempo.
sónico e invisível nos espaços entre o fogo.

sinto-me e
subo
o elevador
sabotado
pelo preto mais branco
da lembrança.

temporizo-me como o senso do ar estimula a onda
e cronometro-me como a eficiência dum músculo.

quando não me perguntam sei
o tempo pelo vácuo.

deito fora todos os relógios
sinto.
como bem o tempo.
e ando.

Gavine Rubro.célula.rubra. (2011)


Reloj muerto

me siento como el tiempo.
es anestésica la garganta que come la edad del tiempo.

me siento como el tiempo.
sónico e invisible en los espacios entre el fuego.

me siento y
subo
el ascensor
saboteado
por el negro más blanco
del recuerdo.

me temporizo como el sentido del aire estimula a la ola
y me cronometro como la eficiencia de un músculo.

cuando no me perguntan sé
el tiempo por el vacío.

desecho todos los relojes
siento.
como bien el tiempo.
y ando.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Enfeitas de maboques cor da lua

Enfeitas de maboques cor da lua
a nossa aparente imobilidade
por detrás do párabrisas do nissan en andamento
na estrada do sumbe que entretece a linha
deste silêncio nocturno à beira-amor.

Minhas mãos viajam do volante para a mente.
Metalizo as pontas soltas da tua metafísica.
A natureza acomoda no espaço o dia íntegro
na exacta proporção de nos querermos.

Nada mais que uma alusão simbólica
à substituição do pneu de trás do carro
acabado de ruir como esse puzzle
das planícies da tua alma na relatividade do horizonte.

José Luís Mendonça. Não saias sem mim à rua esta manhã. nóssomos. 2011


Adornas de maboques color de luna

Adornas de maboques(1) color de luna
nuestra aparente inmobilidad
por detrás del parabrisas del nissan en marcha
en la carretera de sumbe que entreteje la línea
de este silencio nocturno a orillamor.

Mis manos viajan del volante a la mente.
Metalizo los cabos sueltos de tu metafísica.
La naturaleza acomoda en el espacio el día íntegro
en la exacta proporción en que nos queremos.

Nada más que una alusión simbólica
a la substitución de la rueda de atrás del coche
que se acaba de desbaratar como ese puzzle
de las planicies de tu alma en la relatividad del horizonte.

____________
(1) maboque: fruto del "maboqueiro", Strychnos spinosa, del tamaño de una naranja, de cáscara dura y pulpa acidulada.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Saco cheio...

Tinha um saco cheio de palavras para oferecer, mas levei-o a passear pela beira-rio e não sei como, perdi-o…
Perdeu-se-me, o saco, com as palavras que tinha para oferecer…
Será que se diluíram nas águas, elas, fugidas do saco cansadas de mim, estrangeiras…?
Será que se entusiasmaram palavras numa primeira vez água, depois rio…?
Correnteza, mar…?
Vazias vãs nenhumas…?
Ou será que mas roubaram: objectos pedras cristais …?
Deambulam vagabundas agora por feiras de velharias ao sábado, desde manhãzinha...?
Sem legítimo dono e destino incerto?
Jonas. Nostalgia


Bolsa llena...

Tenía una bolsa llena de palabras para regalar, pero me la llevé a pasear por la orilla del río y no sé cómo, la perdi…
Se me perdió, la bolsa, con las palabras que tenía para regalar…
Se habrán diluído en las aguas, ellas, huídas de la bolsa cansadas de mí, extranjeras…?
Se habrán entusiasmado palabras en una primera vez agua, después río…?
Corriente, mar…?
Vacías vanas ningunas…?
O me las habrán robado: objetos piedras cristales…?
Deambulan vagabundas ahora por baratillos de chamarileros los sábados, desde muy temprano...?
Sin legítimo dueño y destino incierto?

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Não conseguir acordar a inconsciência – seguir o rio

a pouca luz anterior de um fim de tarde
onde rolaram rostos vagos de cidade
trajectos de passos sucessivos ao lado das estradas
nos passeios, nas paragens, sem mistério
cronometrados.

o quiosque – o maço de tabaco, o diário
o café ocasional – as vozes dispersas em argolas
o almoço chinês – asas de pássaro e dificuldades
o banco – véus de números e sorrisos de contabilidade
a reunião fleumática – garças altas e nós de gravatas
o trabalho – folhas A4 e conversas fechadas
o supermercado – iogurtes, chocolate e congelados.


a pouca luz interior de um fim de tarde no hall,
na entrada. a correspondência aguarda.
nada de envelopes quadrados, postais,
letras sem computadores, caligrafias de aparo
ouros raros, há quanto tempo não escreves uma carta?


sem hesitar esqueceu as roupas em qualquer lado
no suporte da banheira, na esfera do porta toalhas
na cadeira mais pequena, nas costas do sofá
onde água, uma gota de água desliza e perde densidade.


sem mais que a parte de baixo, deitou-se gasto
de olhos rasgados e húmidos como Rubens, um dia
em Madrid, no museu do Prado, uma tela a óleo
um quadro, onde as peles claras, os penteados
não lembra bem, não interessa, já não sabe.


deitou-se cedo sem cumprir horários
muito perto daquele outro corpo deitado;
um campo de searas no Alentejo longe
onde a dança solta de aves no céu
onde os ninhos de cegonha, as espigas
agudas e risonhas.


não conseguiu acordar a inconsciência.
de olhos abertos como um mocho, mas sentado,
pensou nos jardins escondidos do Palácio.


a mão como um navio desceu do joelho
ao ângulo do ilíaco, passou o diafragma
até ao oriente oposto e diagonal de um ombro.
repetiu o gesto como quem completa uma oração
as mãos, as costelas flutuantes, passando
ao oposto ombro, diafragma, coração.
a cruzada dos braços e os sons do rádio
na hora das notícias. não interessa. não interessa.


obscura a luz do quarto e as duas almofadas
dunas brancas de algodão, anatómicas em socalco.
os lábios entreabertos, entrada sibilante
de uma ilha sem continentes, um lugar de silêncios;
porque não escreveste?
a alma sem asas, em arco, em queda.


apenas e agora a música cardíaca –
como a pedra grande expandindo os círculos,
a música – uma valsa longa e longínqua
nas margens nocturnas do Danúbio.


de madrugada o astro enviou os raios, miríades,
e as pálpebras já tontas encostaram os remos
e seguiram o rio –
José Ferreira. O Mar parece Azeite


No conseguir despertar la inconsciencia seguir el río

la poca luz anterior de un final de tarde
donde habían rodado rostros vagos de ciudad
trayectos de pasos sucesivos al lado de las carreteras
en las aceras, en las paradas, sin misterio
cronometrados.

el quiosco —el paquete de tabaco, el periódico
el café ocasional —las voces dispersas en argollas
la comida china —alas de pájaro y dificultades
el banco —velos de números y sonrisas de contabilidad
la reunión flemática —garzas altas y nudos de corbatas
el trabajo —hojas A4 y conversaciones cerradas
el supermercado —yogures, chocolate y congelados.


la poca luz interior de un final de tarde en el hall,
en la entrada. la correspondencia espera.
nada de sobres cuadrados, postales,
letras sin ordenadores, caligrafías de pluma
oros raros, ¿hace cuánto tiempo que no escribes una carta?


sin vacilar ha olvidado la ropa en cualquier lado
en el soporte de la bañera, en la esfera del toallero
en la silla más pequeña, en el respaldo del sofá
donde agua, una gota de agua se desliza y pierde densidad.


sin más que la parte de abajo, se ha acostado rendido
de ojos rasgados y húmedos como Rubens, un día
en Madrid, en el museo del Prado, un lienzo al óleo
un cuadro, donde las pieles claras, los peinados
ya no se acuerda bien, es igual, ya no sabe.


se ha acostado pronto sin cumplir horarios
muy cerca de aquel otro cuerpo acostado;
un campo de cereal en el Alentejo lejos
donde el baile libre de aves en el cielo
donde los nidos de cigüeña, las espigas
agudas y risueñas.


no ha conseguido despertar la inconsciencia.
con los ojos abiertos como un mochuelo, pero sentado,
ha pensado en los jardines escondidos del Palacio.


la mano como un navío ha bajado desde la rodilla
al ángulo del ilíaco, ha pasado el diafragma
hasta el oriente opuesto y diagonal de un hombro.
ha repetido el gesto como quien completa una oración
las manos, las costillas flotantes, pasando
al opuesto hombro, diafragma, corazón.
los brazos que se cruzan y los sonidos de la radio
a la hora de las notícias. es igual. es igual.


oscura la luz del cuarto y las dos almohadas
dunas blancas de algodón, anatómicas en bancal.
los labios entreabiertos, entrada sibilante
de una isla sin continentes, un lugar de silencios;
¿por qué no has escrito?
el alma sin alas, en arco, en caída.


nada más y ahora la música cardíaca —
como la piedra grande expandiendo los círculos,
la música —un vals largo e lejano
en las orillas nocturnas del Danúbio.


de madrugada el astro ha enviado los raios, miríadas,
y los párpados ya aturdidos han arrimado los remos
y han seguido el río—

quarta-feira, 20 de julho de 2011

bênção

Ter dinheiro e não ter
pagar ficar a dever
ir aos bares do Bairro Alto
beber nos bares nas barracas
cheio de cacau nos bolsos

depois deixar cair o cacau pelos bolsos abaixo
perder os óculos em Lisboa
andar à toa feito rock-star

regressar sem saber como
comprar dois bilhetes em vez de um
um para o Porto outro para Coimbra
viajar fodido dos cornos do estômago da barriga
entrar, saír e depois cair na cama
sem luz sem vontade
e depois regressar a Zaratustra
ao poeta-mago
ao céu ao sol à luz
às mulheres que queres
aos pulsos que cortas que feres
à prudência que mandas para o caralho
vira o baralho
e volta ao futebol
o circo máximo de outrora
quando caminhavas por Roma
entre Cícero e Augusto
rei morto, rei posto

em transe por Lisboa
ao acaso à deriva à sorte
como Pessoa
e, por duas horas,
não sabes o que fizeste
onde estiveste
com quem estiveste
ficou tudo em branco

hoje estás a caminho do mesmo
mas não tens cacau
e isto não é Lisboa
nem tu és o príncipe da Macedónia
só há golos e tolos a festejar
nuvens a perturbar — assim falava Zaratustra
e tu amas as alturas
amas realmente as alturas
e até a Humanidade
mas não suportas a pequenez dos homens

és daqueles que sabes
nada há a fazer
mesmo que vás pelos caminhos direitos
haverá sempre noites, dias em que seguirás
as ruas tortuosas
porque sabes que esse é o caminho do Céu
não o céu de Deus, de Alá ou de Cristo
mas o Céu de Nietzsche, de Blake, de Rimbaud,
de todos os malditos

Abençoados sejam os malditos
abençoados sejam os que procuram
a luz no meio das trevas
abençoados sejam os que te amam
abençoados os que enlouquecem
porque a loucura dos que se curvam
não é loucura, é doença.
António Pedro Ribeiro, Entre o vivo, o não vivo e o morto, 1 (2008)


bendición

Tener dinero y no tener
pagar quedar a deber
ir a los bares del Bairro Alto
beber en los bares en las casetas
con los bolsillos llenos de guita

después dejar caer la guita por los bolsillos
perder las gafas em Lisboa
andar a lo tonto en plan rock-star

regresar sin saber cómo
comprar dos billetes en vez de uno
uno a Oporto otro a Coimbra
viajar jodido del coco del estómago de la tripa
entrar, salir y después caer en la cama
sin luz sin ganas
y después regresar a Zaratustra
al poeta-mago
al cielo al sol a la luz
a las mujeres a las que quieres
a las muñecas que cortas que hieres
a la prudencia que mandas a tomar por saco
gira el taco
y vuelve al fútbol
el circo máximo de antaño
cuando caminabas por Roma
entre Cicerón y Augusto
rey muerto, rey puesto

en trance por Lisboa
al azar a la deriva a suertes
como Pessoa
y, durante dos horas,
no sabes lo que has hecho
dónde has estado
con quién has estado
se ha quedado todo en blanco

hoy vas camino de lo mismo
pero no tienes guita
y esto no es Lisboa
ni tú eres el príncipe de Macedonia
solo hay goles y locos que festejan
nubes que perturban — así hablaba Zaratustra
y tú amas las alturas
amas realmente las alturas
y hasta a la Humanidad
pero no soportas la pequeñez de los hombres

eres de aquellos que sabes
no hay nada que hacer
aunque vayas por caminos rectos
habrá al final noches, días en los que seguirás
las calles tortuosas
porque sabes que ese es el camino del Cielo
no el cielo de Dios, de Alá o de Cristo
sino el Cielo de Nietzsche, de Blake, de Rimbaud,
de todos los malditos

Benditos sean los malditos
benditos sean los que buscan
la luz entre las tinieblas
benditos sean los que te aman
benditos los que enloquecen
porque la locura de los que se curvan
no es locura, es dolencia.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Último cigarro

o vinho é branco a tarde cai o dia avança no vento
na boca acorda o último cigarro o poema segue o risco
a claríssima insuficiência

é este o incêndio da tarde o fim do almoço
a violência dos pássaros as crianças dormem a sesta
reclusas na sombra azul dos quartos

mãos sem sentido
arroz na folha de videira muro caiado de branco
e roseiras

gastronomias inexplicáveis contêm a vida e os pátios
aquela noite grega que não soubemos redigir
vespas bebendo da boca das torneiras

escrevo o poema que não lerás nunca
sobre a toalha de plástico da mesa suja
de azeite

a mão esquecida na vírgula acessa do cigarro
a minha solidão vincada a cotovelos no padrão da toalha
as crianças dormindo na

nitidez esquecida da telefonia

Miguel-Manso. Contra a manhã burra. Mariposa Azual. 2009


Último pitillo

el vino es blanco la tarde cae el día avanza en el viento
en la boca se despierta el último pitillo el poema sigue el trazo
la clarísima insuficiencia

es este el incendio de la tarde el fin de la comida
la violencia de los pájaros los niños duermem la siesta
recluídos en la sombra azul de los cuartos

manos sin sentido
arroz en la hoja de vid muro encalado de blanco
y rosales

gastronomías inexplicables contienen la vida y los patios
aquella noche griega que no supimos redactar
avispas bebiendo de la boca de los grifos

escribo el poema que no lerás nunca
sobre el hule de la mesa manchado
de aceite

la mano olvidada en la coma encendida del pitillo
mi soledad plegada a codos en el patrón del hule
los niños durmiendo en la

nitidez olvidada de la telefonía

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Quando alguém nos morre

Quando alguém nos morre (que morte é essa destino nosso?)
Nós — os parentes, os amigos, os inimigos,
compungidos, graves, não choramos pelo morto
Pelo que sofreu, se sofreu, pelo que ele chorou,
se chorou, pelo que ele sentiu, se sentiu, ao partir
(e partiu?)
Choramos autenticamente por nós próprios (coitados
de nós! Teremos mais precisão, Manuel Bandeira?)
Choramos autenticamente por nós próprios
(o Álvaro de Campos bem no sabía)
Choramos autenticamente por nós inautênticos
que ficamos mais pobres
e nos sentimos lesados
por nossos dereitos feridos
por nossos dereitos de posse frustrados
por nossos dereitos à protecção
por nossos dereitos à amizade
por nossos dereitos ao amor à presença
por nossos dereitos a uma vingança
por tudo quanto queríamos de quem nos morreu.
Por nossos dereitos
"burguesmente"
capitalisticamente
egoisticamente
por nossos dereitos.
Quem pensa no morto, em si, por si?
Nos seus direitos?
Nos seus direitos à vida?
Nos seus direitos à morte?
Nos seus direitos ao direito de ter direitos?
Outros direitos, direitos, direitos os dos outros.
Montámos a alfândega da dor
para cobrar direitos
impostos de lágrimas
que os outros têm de pagar quando se morre.
Não lamentamos o morto
lamentamo-nos porque o morto nos fugiu
parente, que já não quis nosso parentesco
amigo, que já não quis nossa amizade
inimigo que desprezou nossa inimizade
lamentamos a morte
sem nossa licença, isso o que falta, a nossa licença
o nosso consentimento.
Um morto é um traidor
mais que deixar de sofrer deixou de sofrer-nos
que se evadiu do nosso sadismo
e masoquistamente sofremos
o não sofrer-nos, o não sofrer
o não sofrer para nós ou por nós.
O morto é um aviso
ou um conselho que não pedimos nem queremos
e tememos
porque sempre choramos por nós, por nós
e por nossa morte.
É a nossa morte que choramos na morte dos outros.

C. T. Chão Bom, 20.I.70
António Jacinto. Poesia (1961-1975). Tarrafal interior. nóssomos. 2011


Cuando alguien se nos muere

Cuando alguien se nos muere (¿qué muerte es esa destino nuestro?)
Nosotros —los parientes, los amigos, los enemigos,
compungidos, graves, no lloramos por el muerto
Por lo que sufrió, si sufrió, por lo que él lloró,
si lloró, por lo que él sintió, si sintió, al partir
(¿y partió?)
Lloramos auténticamente por nosotros mismos (¡infelices
de nosotros! ¿Tendremos más necesidad, Manuel Bandeira?)
Lloramos auténticamente por nosotros mismos
(Álvaro de Campos de sobra lo sabía)
Lloramos auténticamente por nosotros inauténticos
que nos quedamos más pobres
y nos sentimos lesionados
por nuestros derechos heridos
por nuestros derechos de posesión frustrados
por nuestros derechos a la protección
por nuestros derechos a la amistad
por nuestros derechos al amor a la presencia
por nuestros derechos a una venganza
por todo cuanto queríamos de quien se nos ha muerto.
Por nuestros derechos
"burguesmente"
capitalistamente
egoistamente
por nuestros derechos.
¿Quién piensa en el muerto, en sí, por sí?
¿En sus derechos?
¿En sus derechos a la vida?
¿En sus derechos a la muerte?
¿En sus derechos al derecho de tener derechos?
Otros derechos, derechos, derechos los de los otros.
Montamos la aduana del dolor
para cobrar derechos
impuestos de lágrimas
que los otros tienen que pagar cuando se muere.
No nos lamentamos por el muerto
nos lamentamos porque el muerto se nos ha escapado
pariente, que no quiso más nuestro parentesco
amigo, que no quiso más nuestra amistad
enemigo que despreció nuestra enemistad
lamentamos la muerte
sin nuestro permiso, eso es lo que falta, nuestro permiso
nuestro consentimiento.
Un muerto es un traidor
más que dejar de sufrir ha dejado de sufrirnos
que se ha evadido de nuestro sadismo
y masoquistamente sufrimos
el no sufrirnos, el no sufrir
el no sufrir para nosotros o por nosotros.
El muerto es un aviso
o un consejo que no pedimos ni queremos
y tememos
porque siempre lloramos por nosotros, por nosotros
y por nuestra muerte.
Es nuestra muerte lo que lloramos en la muerte de los otros.