quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Despir outra pele

O meu casaco de imposições biológicas está gasto
nos sítios onde o corpo oferece resistência ao tempo
e há um maior número de glândulas sudoríferas.
Chego a casa, dispo o casaco, e permaneço
com o casaco vestido.

A noite é uma ponte em ruínas.
A lua, um holofote de ideias fixas.
Ao longe vêem-se os cabos de sustentação
da inércia.
É inútil eleger alguma hora melhor
que nos proteja.
A minha vida é permanecer
auscultado por essa fantasmagoria.
Com ou sem casaco,
especializei-me em permanecer.

Permanecer com as metástases do meu casaco,
como as metástases do meu casaco
permanecem em mim, mesmo quando o dispo,
contemplando uma ponte em ruínas
e exercendo aí a minha permanência
o melhor que posso e sei,
24 horas por dia.

Há sempre um casaco a cobrir as costas
demasiadamente expostas da permanência.
Pêlos, ainda que pálidos e breves,
na pele postergada dos mamíferos.
E o invisível gesto de alguém que se apressa
lentamente a aconchegar-te ao primitivo,
com as mãos sujas de desdém
e a tecnologia do contacto indestrutível.
André Domingues. Do amor mau



Desvestir otra piel

Mi chaqueta de imposiciones biológicas está gastada
por los sitios en que el cuerpo ofrece resistencia al tiempo
y hay un mayor número de glándulas sudoríparas.
Llego a casa, me quito la chaqueta, y permanezco
con la chaqueta puesta.

La noche es un puente en ruinas.
La luna, un reflector de ideas fijas.
A lo lejos se ven los cabos de sostén
de la inercia.
Es inútil elegir alguna hora mejor
que nos proteja.
Mi vida es permanecer
auscultado por esa fantasmagoría.
Con o sin chaqueta,
me he especializado en permanecer.

Permanecer con las metástasis de mi chaqueta,
como las metástasis de mi chaqueta
permanecem en mí, incluso cuando me la quito,
contemplando un puente en ruinas
y ejerciendo ahí mi permanencia
lo mejor que puedo y sé,
24 horas al día.

Hay siempre una chaqueta que cubre la espalda
en exceso expuesta de la permanencia.
Vello, aunque pálido y breve,
en la piel postergada de los mamíferos.
Y el invisible gesto de alguien que se apresura
lentamente a arrimarte a lo primitivo,
con las manos sucias de desdén
y la tecnología del contacto indestructible.

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